Tempo, tempo, tempo, tempo...

domingo, 13 de novembro de 2011

Ana das Carrancas: a dama do barro


Há muitos anos venho pensando em postar sobre D. Ana (como a chamávamos), uma artista com quem tive a dádiva de poder conviver por muitos anos e por quem nutro uma imensa admiração.

Acho que o fato se dava, em virtude de não saber como colocar-me: se como alguém do convívio ou se como apenas uma admiradora... Fui escrevendo, escrevendo e deu no que deu.

Espero que eu tenha transmitido o que realmente quis, que é a real importância que possui essa figura para todos nós petrolinenses.

Na minha explanação, buscarei mesclar pedaços de sua biografia com um pouquinho dos momentos vividos em sua companhia, por terem sido algo de considerável importância à minha pessoa.

Falemos de Ana das Carrancas, a dama do barro, a D. Ana Leopoldina Santos, uma simples mulher, porém guerreira, e que pela arte e determinação tornou-se a mais importante artista popular do Vale do S. Francisco.

D. Ana era filha de artesã e agricultor e nasceu em 18/02/23, em Santa Filomena, distrito de Ouricuri-PE).

Aos sete anos já moldava panelas, santos e outros utensílios, no propósito de auxiliar sua mãe nas feiras, para o sustento da família.

Na época em que frequentava o seu galpão (ali onde nosso grupo de jovens do bairro Gercino Coelho se encontrava, graças à bondade de D. Ana, que gentilmente nos cedeu o espaço para as reuniões), ouvia da Cruz (Mª da Cruz) contar que sua mãe tinha vindo para Petrolina, em virtude das dificuldades financeiras e que foi às margens do Rio S. Francisco ( na busca pelo barro que já estava escasso nas proximidades do galpão) que D. Ana teve a inspiração de fazer a sua primeira carranca,  vislumbrando as de madeira que surgiam nas proas das barcas ancoradas à beira rio.


Sabe-se também que D. Ana havia sido viúva e casou-se ainda jovem com o Sr. José Vicente de Barros, que era "cego de nascença" (expressão bem nordestina) devido a problemas consanguíneos.

Eu os via sempre juntinhos naquele galpão: embora cego, ele a ajudava amassando o barro, enquanto conversavam horas a fio.
(A impressão que eu tinha é que ele não envelhecia...)
E foi por meio desse amor e forte união, que D. Ana passou a modelar suas famosas carrancas de "olhos vazados" (em  homenagem ao seu amor José).

Centro de Cultura Ana das Carrancas

A fama da artesã não chegou facilmente: muitos dizem que quando ela passou a vender suas carrancas na feira, grande parte das pessoas sorriam e diziam ser uma "arte de loucos" e foi somente na década de 70 que dois assessores da EMPETUR (Olímpio Bonald Neto/Francisco Bandeira de Melo) a descobriu, através de uma pesquisa sobre o artesanato pernambucano.

E você, sabe a origem das carrancas do S. Francisco?



A carranca do S. Francisco é conhecida como uma arte única: uma manifestação artística própria de entalhadores(chamados de carranqueiros) de troncos de madeira que dão feição às toras que transformadas em carrancas: seres para lá de feios ( hehehe) e que eram primordialmente moldados para uso em proas de embarcações, a fim de afugentar seres mitológicos, lendários e até mesmo os monstros das águas... ("Vixeeeeee", falei bonito!!! Eu nem sabia que sabia!).
Hoje, a carranca é utilizada como adorno em diversos locais, principalmente em fachadas de comércios e residências (inclusive em outros países), por afastarem os maus espíritos.

Iguais às carrancas de D. Ana, só se forem cópias! E foi por ser uma arte diferente, que ela passou a tornar-se conhecida nacional e internacionalmente (e foi parar em museu canadense).

No ano de 2005, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural (quando Gilberto Gil era ministro da cultura) e também recebeu o título de Patrimônio Vivo de PE (Governo do Estado).

Quando vejo os títulos, fotos, sinto saudade daquele jeitão humilde que só ela tinha! Uma humildade tão vista a olhos nus! Era algo de sua personalidade... Assim como também era de sua personalidade aquele jeitão de mulher ríspida, brava, que nos dava broncas, mas que ao mesmo tempo estava nos enchendo de atenções! Hehehe... Não era em vão que ela também era aquariana ( nascemos no dia 18/02 e nunca nos esquecíamos de nos homenagear! Mesmo já distante do galpão, eu ainda ia lá dar-lhe e receber um abração do tipo TIA NASTÁCIA... Um abração seco, mas cheio de amor de uma mulher nordestina de uma mulher de amor!).

D. Ana cresceu! Ventos levavam notícias de sua fama pelos arredores do mundo: jornais, televisões, revistas, repórteres aqui chegavam como chega a fome ao prato do sertanejo quando a seca arrebata...

Em 2000 ( já de maneira tardia), o governador Jarbas Vasconcelos inaugurou o Centro de Artes e Cultura Ana das Carrancas (com sua morada ao lado).

(Bem próximo da minha atual residência)
E foi ali que a vi pelo último aniversário: ela já estava doente (havia sofrido AVC) e se encontrava sentadinha numa cadeira de balanço,  do lado, claro, do seu grande amor.

Abracei-a com o mesmo carinho de outrora e conversamos sobre os anos passados.

Volvi meus olhos para aquela mulher que havia ficado lá atrás: eu ainda era muito "verde" para compreender as façanhas da arte popular mas lembro-me que ficava horas a observar aquelas mágicas mãos modelando a massa e fazendo peripécias com criaturas que surgiam misteriosamente...Eu até tentei, pensando ser fácil... Sujei-me toda com um "taquinho" (pedacinho) de argila!

Após o acidente vascular, as duas filhas: Mª da Cruz (minha amiga de grupo) e Ângela, passaram a assumir o Centro e nessa minha visita eu tive a oportunidade de apreciar de perto a arte de Ângela (a mais nova).

Enquanto as duas irmãs nos mostravam as peças, eu me embevecia com a mistura linda do rústico com o neo, resultantes das mãos de Ângela:

Luiz Gonzaga - o rei do baião
Vejam maiores detalhes acerca da sua obra: 
https://anadascarrancas.wordpress.com/ana-das-carrancas/

D. Ana nos deu seu adeus em outubro de 2008 (AVC) mas  deixou um Centro em funcionamento voltado para projetos sociais (aulas de xadrez, cursos, oficinas e para fortalecimento e manutenção da arte com o barro, que vem sendo bem trabalhada pelas filhas, pessoas dinâmicas e que buscam estar difundindo fortemente o legado que a mãe tão honrosamente deixou).
Mulher com moringa/natureza morta
(Ângela)

Deixou-nos também um lindo exemplo de amor sem limites...
E pensamentos filosóficos acerca da sua vida:


"O barro é como gente: tem o ruim e o bom e até mesmo o regular.


Conhecendo o barro, se conhece o mundo: ele é o começo e o fim de tudo e sem ele não sou ninguém. Não me separo do barro por coisa nenhuma, porque amo aquilo que me ama e o barro é um caco (pedaço) de  mim."


Foi por meio de sua humildade, que ela permitiu-se amar novamente e ser amada:


"...minha mãe foi uma grande professora da vida, pela humildade e força que teve. 
Lembro que quando chegamos em Brasília, onde ela foi recebida pelo presidente Lula para ser homenageada com a mais alta comenda que um artista ganha no país, ela disse: "olha só onde o barro me trouxe!"

(Mª da Cruz - Filha)








Linda foto, D. Ana! ( que o fotográfo permita-me roubá-la...).



A flor Hibiscus (deusa grega), uma flor exuberante, realça o seu rosto forte, cheio de glória por poder ter fortalecido nossa identidade cultural de maneira tão grandiosa!

Flores para você D. Ana! Flores sempre, por tudo o que você representou para a minha vida e para todos os petrolinenses!


Um pouco de sua arte:


ACERVO - FUNDARPE
















Blog: Meu Velho Chico









Reprod. fotográfica: blog Meu Velho Chico

Foto: Vânia Braynner




5 comentários:

Andre Mansim disse...

linda homenagem a essa grande artesã que você nos apresentou, parabens Japinha! Muito legal mesmo!

Lêuda Fernandes disse...

Parabéns Lu, fiquei emocionada lendo a história de D. Ana, mais uma vez fez um belíssimo texto.
Sinto-me feliz em tê-la como colega de trabalho.

Lu Almeida Imoto disse...

Dedé/Lêuda:

Qdo o elogio parte de pessoas como vcs, aí fico "inflada" mesmo!

Brigadão!

Ma Ferreira disse...

Oi Lu!

Me emocionei com a estória desta
grande Mulher.
Poxa, muito obrigada em compartilha-la.

Pelo todo relato da sua escrita fica aqui a minha vontade de te-la conhecida.

Não só pela gramde artista, pes pelo grande ser humano que era.

Um beijo a vc.... estar aqui hoje foi um presente pra mim!!!

Ma Ferreira disse...

Oi Lu!

Me emocionei com a estória desta
grande Mulher.
Poxa, muito obrigada em compartilha-la.

Pelo todo relato da sua escrita fica aqui a minha vontade de te-la conhecida.

Não só pela gramde artista, pes pelo grande ser humano que era.

Um beijo a vc.... estar aqui hoje foi um presente pra mim!!!