Tempo, tempo, tempo, tempo...

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O homem que entrou no cano



Abriu a torneira e entrou pelo cano. A princípio incomodava-o a estreiteza do tubo. Depois se acostumou. E, com a água, foi seguindo. Andou quilômetros. Aqui e ali ouvia barulhos familiares. Vez ou outra, um desvio, era uma seção que terminava em torneira.

Vários dias foi rodando, até que tudo se tornou monótono. O cano por dentro não era interessante.

No primeiro desvio, entrou. Vozes de mulher. Uma criança brincava. Ficou na torneira, à espera que abrissem. Então percebeu que as engrenagens giravam e caiu numa pia. À sua volta era um branco imenso, uma água límpida. E a cara da menina aparecia redonda e grande, a olhá-lo interessada. Ela gritou:

"Mamãe, tem um homem dentro da pia".

Não obteve resposta. Esperou, tudo quieto. A menina se cansou, abriu o tampão e ele desceu pelo esgoto.

(Ignácio de Loyola Brandão)

domingo, 27 de novembro de 2011

Não dê ouvidos à maldade alheia e creia!

                                                   A corrida dos sapinhos

Certo dia, aconteceu uma espantosa corrida de sapinhos.

Eles tinham que subir uma grande torre: algo um tanto difícil para sapinhos tão pequenos.

Iniciou-se  a competição.

Os sapinhos davam de si o que podiam, enquanto a multidão desacreditada gritava:

- Não vão conseguir, não vão conseguir!

Os sapinhos, já cansados e ouvindo as murmurações da multidão,  iam desistindo pouco a pouco e cada vez mais diminuia-se o número de competidores.

Ao final da competição, observou-se que todos haviam desistido, exceto um sapinho persistente que continuava a escalar, escalar, embora as pessoas continuassem a bradar:

- Você não vai conseguir, você não vai conseguir!

Havia uma tranquilidade e um grande equilíbrio na escalada do sapinho que, logicamente era o vencedor.

As pessoas que ali estavam ficaram surpresos com o êxito do sapinho e resolveram interrogá-lo, a fim de descobrirem a estratégia utilizada para alcançar seu objetivo.

O sapinho era SURDO.


(Autor desconhecido - Recontado por mim)

sábado, 9 de julho de 2011

Além da palavra...


HISTÓRIA DE UMA TRAÇA

Paulo Corrêa Lopes

Conheci uma traça que se tornou espírita por ter passado uma temporada dentro de um volume de Allan Kardec.
Nunca vi espetáculo mais engraçado do que ouvi-la dissertar sobre a teoria da reencarnação para o aperfeiçoamento das almas.
Por mais que eu tentasse convencê-la do absurdo do espiritismo, nada pude conseguir. Parece que a traça sentia certo bem-estar íntimo.
Certa vez confessou-me:
- Numa vida anterior fui um elefante que vivia feliz nas florestas da Abissínia. Uma tarde, quando me dirigia a um lago para matar a sede, fui ferido em pleno coração pelo poeta Rimbaud, que negociava com marfim para esquecer seu sonho de poesia.
- Você, que me ouve, dizia-me, talvez já tenha sido um tigre e um dia será uma árvore.
Era uma traça terrível. Falava com tanto ardor que muitas vezes pensei que fosse amiga do vinho. Porém, verifiquei com o tempo que detestava a bebida porque o álcool ataca o fígado. Não era, como se vê, por virtude que não bebia.
Ainda me lembro do meu último encontro com a traça. Foi numa noite fria de agosto. O minuano soprava com tanta força que parecia um demônio em liberdade. Nesse encontro ela me falou sobre a loucura. Disse-me que a loucura se dá quando espírito de um morto encarna no corpo de um ser vivo. O espírito dono do corpo protesta contra o usurpador e o usurpador resiste; trava-se a luta e a luta é a loucura.
Depois dessa noite nunca mais a vi. Talvez a esta hora tenha voltado ao volume de Allan Kardec para resolver alguma dúvida que haja surgido em seu cérebro teimoso de traça.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Além da arte...


Há livros que sobrepõem a arte!

O Homem que Contava Histórias de Rosane Límoli Pamplona e ilustração de Sônia Magalhães, assim o faz: simplesmente lindo e de um caráter fortemente filosófico, a obra reúne 20 ( vinte) contos de diversas tradições ( judaica, indiana, chinesa, persa, japonesa, italiana, brasileira, grega, russa...).

Todas as histórias são recheadas de ensinamentos e reflexões, além de possuir uma belíssima ilustração, realizada através de colagem e com uma significação, que nos fazem imaginar que estas foram feitas por quem escreveu o relato: através da colagem, a ilustradora utiliza estampas, azulejos, papel para origami, pontos russos, desenhos de porcelas chinesas, mesclando o texto à ilustração característica de cada país.

Durante a leitura do livro, passava momentos apreciando as colagens e ao terminar a leitura, fiquei alguns dias folheando-o, degustando o prazer que os desenhos me causaram.

Escolhi um conto italiano para seu deleite. Espero que gostem, mas devo dizer-lhe que ele é apenas uma das lindas histórias ali encontradas...

Uma questão de interpretação
(Recontado por mim)

Havia, em certo reino, um mosteiro habitado por monges jovens e idosos, que passavam o dia em preces...

Um dia, um novo rei subiu ao trono e quis conhecer melhor seus domínios.

Maravilhado com os jardins do mosteiro, cobiçou-o, pensando em transformá-lo em residência de veraneio.

Como não podia expulsar os monges, resolveu conseguir o queria de modo mais sutil.

Tentando comprovar que os monges eram ignorantes e achando que deveriam levar uma vida mais austera para ampliarem os seus conhecimentos, resolveu escolher um deles para debater com o sumo sacerdote da corte: se o sacerdote ganhasse o debate, eles seriam expulsos e se assim não fosse, os monges ganhariam o direito de habitar o monastério para sempre.

Os monges temeram o debate, já que o sacerdote era um homem muito sapiente e nenhum deles, exceto o jardineiro, se candidatou ao debate.

Este jardineiro era um homem simples, mas não havia saída.

O sacerdote prometera a si mesmo que derrotaria o adversário sem nem sequer pronunciar uma palavra e olhando-o com desprezo, apontou o dedo para cima. O jardineiro, sem se perturbar, apontou o dedo para o chão.

O sacerdote pareceu ficar desconcertado e mostrou-lhe então um dedo, diante de seu nariz. O jardineiro então, mostrou-lhe os cinco dedos, com a mão toda aberta.

Titubeante, o sacerdote tirou do bolso uma laranja. O jardineiro, muito tranquilo, tirou do bolso um pãozinho.

Reconhecendo a derrota, o sacerdote pediu ao rei que encerrasse o debate, dizendo que nunca encontrara um adversário tão sábio.

Os monges conservaram o monastério para sempre e o povo se reuniu com o sacerdote, querendo que ele explicasse o que, tinha sido discutido.

O sacerdote disse que quando apontou o dedo para cima, quis declarar que só a sabedoria dos céus é que conta neste mundo. Mas ele, apontando para a terra, rebateu dizendo que, embora não possamos deixar de considerar os céus, somos homens e vivemos na terra. Mostrando-lhe um único dedo, quis mostrar que somos frágeis, porque estamos sozinhos. E ele sabiamente me fez pensar que não, pois estamos cercados por outros homens, nossos irmãos. Finalmente, ao mostrar a laranja, rebati suas ideias, lembrando-o de que a natureza é mais forte do que o homem, pois sabe criar coisas que ele jamais criaria. Foi assim que ele me deu o golpe de misericórdia: ao mostrar-me o pão, lembrou-me de que o homem é capaz de conhecer e modificar a natureza, criando obras que, sozinha, ela não pode fazer.

Todos ficaram estupefatos com a sabedoria revelada pelos monges.

Enquanto isso, no monastério, os monges se reuniam ao redor do jardineiro, que explicava:

- Foi muito simples. Quando ele apontou para cima, mostrando que ia chover, eu mostrei-lhe o chão, dizendo que seria bom, pois a terra necessita de chuva. Depois ele me pareceu aborrecido e me mostrou um calo no seu dedo. Querendo ser gentil, mostrei-lhe minha mão toda, para que ele visse que isso não tem importância: eu tenho calos em todos os dedos! E quando ele tirou a laranja do bolso, pensei que fosse hora do lanche e peguei meu pão.


É por isso que Enkantinho é xonadinha pelas coisas simples da vida!!!


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A MAGIA DE CONTAR HISTÓRIAS...

Há tempo melhor?

Tal mãe, tal filho... hehehe
Sempre gostei de "contar histórias" dramatizando. Eu mesma acho mágico modificar a voz, o ritmo, a entonação e observar o olhar de espanto dos pequeninos... Há um grupo de crianças que acompanham as mães ( que estudam à noite ), somente para poder ouvir uma história contada por mim na biblioteca. Se estou ocupada, sempre digo: vocês sabem lerrrrrrr! E elas argumentam: - Mas não é a mesma coisa! Você conta diferente! Daí, não dá pra ver os olhinhos pidões e termino por ler uma e mais umas, já que elas sempre me convencem a ler "só mais uma" e por aí vai. Essa eu tenho que deixar aqui registrada, porque ela realmente encanta a todos! O Rick e o Vítor, meus filhos, até já aprenderam a cantar ( a melodia que inventei ) as falas do macaco e na roça, o Vítor deu um show contando-a para todos, à beira da fogueira. Compartilho-a com vocês...
Fogueirinha boaaaaa...

MACACO E PAPAI DEUS Um conto do Haiti Há muito tempo, no meio de uma floresta, morava uma velha que criava abelhas. Criava colmeias e colmeias, e no fim do verão coletava mel: eram conchas, jarras, tigelas e barris transbordando de mel doce e dourado. O que a velha fazia com tudo aquilo? Bem, ela ficava com a maior parte, dava um pouco para os outros e o resto ela despejava num pote imenso. Erguia aquele pote imenso, ajeitava-o na cabeça e atravessava a floresta, rumo à feira, para vender seu mel. Um dia, ela ia caminhando, caminhando pela floresta, equilibrando na cabeça o pote abarrotado de mel. Mas, enquanto ia andando, uma coisa terrível aconteceu. Ela bateu com o pé na raiz de uma árvore, tropeçou, caiu e... Ploft! O pote se espatifou e o mel se derramou, escorrendo por todo lado. A mulher começou a chorar: - Ai, que desgraça, Papai Deus? Por que você me manda tanta desgraça? E ela começou a caminhar de volta para casa, chorando e agitando as mãos. - Que desgraça, que desgraça, Papai Deus, quanta desgraça você me manda! Mas ali, sentado em meio aos galhos de uma árvore, espiando tudo, estava um macaquinho. Assim que a velha se foi, ele desceu até o chão e enfiou o dedo naquela coisa viscosa. Nunca tinha visto aquilo antes. Então, levou o dedo à boca. - Mmmm, que desgraça gostosa! Eu nunca tinha experimentado - e ele levou à boca mais uma mão cheia daquilo. - Mmmmm, desgraça é doce como açúcar! O macaco comeu, comeu, cuspindo fora os pedacinhos de pau e casca de árvore e lambendo os cacos do pote quebrado. - Mmmmm, desgraça é uma delícia! E depois, de acabar com o último pingo dourado, ele só conseguia pensar numa coisa: - Quero mais desgraça. O macaco se lembrou do que a velha tinha dito: “Papai Deus, por que você me manda tanta desgraça?” Coçou a cabeça. Então ela dali que vinha a desgraça! - Se eu fizer uma visita ao Papai Deus, talvez ele me dê um pouco mais de desgraça – ele pensou. Quanto mais pensava, mais gostava da ideia. Então ele foi subindo nas árvores, subindo, subindo, até chegar à casa do Papai Deus. E lá estava o próprio Papai Deus, sentado ao sol,vigiando o mundo. - Oi, Papai Deus! Papai Deus sorriu. - Olá, macaquinho, o que você quer? - Quero desgraça, Papai Deus. Papai Deus ficou intrigado. - Quer desgraça, macaquinho? - Desgraça é uma delícia, é doce. Quero toda a desgraça que puder me dar, Papai Deus! Papai Deus se levantou. - Bem, por acaso eu tenho um pouco de desgraça especialmente feita para macacos. Tem certeza de que é isso que você quer? O macaco fez que sim com a cabeça. Então Papai Deus entrou em casa e logo voltou, trazendo um saco de couro. - Macaquinho, este saco está cheio de desgraça. Mas ouça muito bem o que vou lhe dizer. Primeiro leve o saco até o meio de um imenso deserto de areia, onde não cresça nenhuma árvore. Aí desamarre a boca do saco e, dentro dele, você vai encontrar toda a desgraça possível de imaginar. O macaquinho não perdeu tempo. Pegou o saco de couro e desceu de volta ao mundo. Correu, correu, até chegar ao meio dele. Então ele se sentou. Estava com a barriga roncando e a boca cheia de água, só de pensar em toda aquela desgraça. Ele se sentou, lambeu os beiços e desamarrou o cordão que fechava a boca do saco, exatamente como Papai Deus tinha mandado. E lá de dentro saiu uma verdadeira desgraça de macaco... CACHORROS! Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete cachorros imensos, rosnando e salivando! - Aaaaargh! – o macaquinho soltou o saco, fez meia-volta e saiu correndo! - Aaaaargh! – os sete cachorrões saíram correndo atrás dele. - Aaaaargh! – eles estavam chegando perto. -Aaaaaargh! – o macaco sentia o bafo dos cachorros nas costas dele. Então, bem no momento em que ele achou que sua vida tinha chegado ao fim... apareceu uma árvore! Uma árvore imensa surgiu do nada. Uma árvore imensa no meio do deserto, onde não crescia nenhuma árvore. O macaco subiu por seus galhos o mais depressa que pode. E os sete cachorros ficaram rondando, rondando a árvore, latindo, rosnando e salivando. Acontece que cachorro não sobe em árvore! O macaco passou o resto do dia encarapitado no alto da árvore, tremendo de medo. Quando finalmente o sol se pôs e chegou a escuridão, os sete cachorros sumiram pelo deserto, com o rabo entre as pernas. Assim que eles se foram, o macaquinho desceu da árvore e voltou correndo para a floresta. Mas fica uma pergunta: quem colocou aquela árvore enorme no meio do deserto quente e arenoso, onde não há nenhuma outra árvore? Pois eu vou contar: foi Papai Deus. Por quê? Porque Papai Deus sabe que desgraça demais não é bom, nem mesmo para um macaco.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

UM CONTO ESPECIAL AOS FOFOQUEIROS...

(ovoodotempo.wordpress)
PEIXES NA FLORESTA ( Conto de origem russa )
Era uma vez um lavrador que vivia com a mulher em seu sítio. Acontece que a mulher do lavrador era incapaz de guardar segredo! Isso mesmo, ela não guardava segredo de jeito nenhum. Tudo o que lhe contavam, a cidade inteira ficava sabendo em menos de um dia. A mulher do lavrador ia ao mercado, fazia visitas e entregava ovos para todo o mundo, e em uma semana a novidade se espalhava pelo país inteiro. Nada caminha mais depressa do que uma fofoca. Pois bem, um dia o lavrador estava cavoucando a plantação de nabos quando de repente a lâmina da pá bateu na tampa de ferro de uma velha arca enferrujada. Ao levantar a tampa, seus olhos se ofuscaram diante de um monte de ouro amarelo e brilhante. - Ora, ora – ele pensou -, preciso ter cuidado. Minha mulher não consegue guardar segredo. Se ela vir todo esse ouro, até o fim do dia a cidade inteira vai ficar sabendo e, daqui a uma semana, essa história vai parar nos ouvidos do rei. Sendo rei, e além do mais muito ambicioso, certamente ele vai querer ficar com todo o ouro. O lavrador sentou no meio do canteiro e ficou pensando, pensando. No fim, achou que a única coisa a fazer era esperar a mulher pegar no sono, levar o ouro para casa no meio da noite e enterrá-lo no chão da cozinha. Foi isso que ele fez. Quando ouviu a mulher roncar profundamente adormecida, o lavrador, sob a luz do luar, foi até o campo e pegou o ouro. Levou-o para casa com muito cuidado e começou a cavar um buraco no chão da cozinha. Estava cavoucando quando, CRAC!, a pá bateu numa pedra. A mulher acordou, acendeu uma vela e desceu as escadas, correndo: - O que está acontecendo aqui? E então ela viu o tesouro brilhante. - Oh, marido, onde você achou esse ouro? - Psss! Ouça uma coisa, esse ouro é segredo. Achei-o na plantação de nabos. Não conte para ninguém, nenhuma viva alma pode saber, está entendendo? - Ora, marido, você me conhece. Não vou dizer uma palavra a ninguém, prometo! Mas por acaso ela conseguia guardar segredo? Eu sei, você sabe e o lavrador também sabia muito bem que ela não conseguia guardar segredo. A noite toda o marido ficou pensando: - Ora, ora, o que vou fazer agora? Daqui a um dia a cidade toda vai estar sabendo, daqui a uma semana o rei vai estar sabendo. Ele pensou, pensou e teve uma ideia. - Claro – ele disse -, é isso que eu vou fazer! Logo cedo, assim que amanheceu, ele pulou da cama e foi até a cidade. Foi à peixaria e comprou umas trutas prateadas e pintadinhas. Foi à padaria e comprou uns bolinhos com passas. Foi ao açougue e comprou uma fieira de linguiças. Depois o lavrador foi à floresta, não muito longe de suas terras. Espalhou os peixes pelo capim úmido, pendurou os bolinhos nos galhos das árvores, pegou uma vara de pescar, enganchou o anzol nas lingüiças e jogou-as no rio. Então, esfregando as mãos e rindo consigo mesmo, voltou para casa. - Mulher, mulher, acorde! Está um dia perfeito para pescar na floresta! A mulher sentou na cama, esfregando os olhos: - O quê? Pescar? Na floresta? - Isso mesmo! Venha comigo, depressa. Não é sempre que isso acontece. Há peixes nadando no capim e me disseram que vai chover bolinhos de passas! Então, ela pulou da cama, vestiu-se muito depressa, pegou uma cesta e os dois saíram correndo pelo campo rumo à floresta. Assim que chegaram, ela gritou: - Veja só! É verdade! Olhe só as trutas nadando pelo capim. Ela pegou as trutas e as jogou na cesta. - São bonitas e gordas! Depois ela viu os bolinhos pendurados nas árvores. - Marido, você tinha razão! Bolinhos! O marido confirmou: - Pois é, choveram bolinhos, mesmo! Se você tivesse pulado antes da cama, com certeza também teríamos encontrado bolos pelo chão. Alguém deve ter chegado antes e levado tudo. Não foi preciso andar muito para chegarem ao rio. O lavrador disse: - Vou puxar minha vara de pesca para ver o que consegui pegar. Ele recolheu a linha e ali estava, balançando enganchada no anzol, uma fieira de linguiças. A mulher do lavrador quase perdeu o fôlego: - Linguiças! No rio! - Pois é – disse o lavrador -, sempre há linguiças nadando no rio. Mas não é todo o mundo que sabe pegá-las. Eles voltaram para o sítio e comeram um café da manhã maravilhoso, com trutas, bolinhos de passas e linguiças. Mas quem disse que a mulher do fazendeiro se esqueceu do ouro? Que nada! No fim daquele dia, a história do tesouro escondido já tinha corrido a cidade de ponta a ponta. A mulher do lavrador ia ao mercado e entregava ovos para todo o mundo, e no fim de uma semana o país inteiro estava sabendo da história. Afinal, nada caminha mais depressa do que uma fofoca. E é claro que o rei, muito ambicioso, quis ficar com todo o ouro. - Tragam-me aquele lavrador e a mulher dele! – ordenou o rei. Assim, os dois foram levados ao palácio do rei. É verdade que vocês encontraram um tesouro enorme? – perguntou o rei. - Não, não é verdade – disse o lavrador. - Mas ouviram sua mulher contar a história para todo o mundo e o reino inteiro está falando nisso. O lavrador riu. - Ora, Majestade, minha mulher é completamente louca. Suas histórias não tem pé nem cabeça. A mulher do lavrador bateu o pé. - Louca coisa nenhuma – ela disse. – Eu vi com meus próprios olhos, Majestade. Ele estava enterrando o ouro no chão da cozinha. O rei olhou para a mulher com seus olhinhos ambiciosos. - Quando foi que você viu isso? A mulher do lavrador pensou um pouco e respondeu: - Ora, Majestade, foi uma noite antes de acharmos os peixes nadando na floresta. Choveu bolinhos de passas e nós enchemos uma cesta... e depois meu marido pescou uma fieira de linguiças no rio... O rei balançou a cabeça: - Coitada, completamente louca, aluada, doidinha! Linguiças no rio, peixes na floresta, ouro enterrado no chão, chuva de bolinhos! Leve-a para casa, lavrador. Nunca mais quero ouvir as histórias dela. E os dois foram para casa. Assim, o lavrador ficou com todo o ouro brilhante e amarelhinho só para ele. Quanto à mulher, quando ela começava a contar segredos ou espalhar fofocas, as pessoas balançavam a cabeça e sorriam: - Coitada, ela é louca! - Aluada! - Doidinha! E assim a mulher do lavrador passou a guardar os segredos só para ela.

sábado, 5 de junho de 2010

JÁ PODEIS DA PÁTRIA FILHOS

O autor do conto que agora publico, é João Ubaldo Ribeiro, jornalista, escritor, roteirista, colunista de jornais e professor, além de ocupar a cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, desde a sua eleição em 1993.
João é baiano de Itaparica, nascido em 23/01/41
Viveu em diversos lugares ( inclusive EUA e Berlim ) e é hoje considerado um dos melhores escritores brasileiros ( amigo de Glauber Rocha desde a adolescência, produziu diversos trabalhos em parceria com o mesmo ).

Gosto do seu humor irônico e a irreverência de, às vezes, iniciar suas narrativas pelo meio da história.

Na Copa do Mundo de Futebol nos Estados Unidos, ele trabalhou como enviado dos jornais "O Globo" e "O Estado de São Paulo" ( por isso é que o baiano entende de jogo!!! )

Vamos ler JÁ PODEIS DA PÁTRIA FILHOS?

Sabe-se que o estrangeiro, ao jogar futebol, ataca o balão de couro como se fosse inimigo. Há quem diga que o joelho empedrado é natural do gringo, variando uma besteirinha de acordo com a espécie. Isto devido à comida que eles comem, que é muito melhor do que a comida que o brasileiro come, com exceção de que o joelho fica empedrado. Porém a comida dá enormes sustanças e além disso eles usam foguetes e o raio leise. Ninguém me diga que a Hungria não usou o raio leise em cinquenta e quatro, quando eles davam de 11 a 8 e 19 a 15 e 48 a O em quem aparecesse, eles não facilitavam. Disse seu Góes, que não esteve nessa copa, aliás não esteve em copa nenhuma, mas esteve com Pongó que o primo esteve nessa copa, que eles vinham lá de baixo do campo parecendo uns cavalos, tudo falando hurunguês e dando aqueles passes de joelho empedrado, situque-situque. Pela cara de abestalhado que eu vi numa revista, pela cara de abestalhado que ficou um beque, quando esse cabeceador pulou de um jeito que quase amunta nas costas do beque e olhe que o beque tinha subido e era maior do que Chico do Correio, a gente via que o beque só podia estar estontecido pelo leise, eles usam todos os recursos, a copa é uma guerra. No Brasil mesmo enfiaram 4 a 2, se não me engano, assim mesmo porque o comprido cabeceador deles não estava cabeceando bem naquele dia, visto que o americano foi lá e roubou o leise e ficou com a invenção para ele, mas não quero saber dessas coisas porque não suporto política. Estólei Mattos, o grande ponteiro inglês, enfiou uma bola pelo meio das pernas do Nilton Santos, coisa que só foi possível porque o inglês guarda o segredo do espittfaire, aeroplano que derrotou o alemão na guerra, em razão de que continha o segredo da bomba atômica - em inglês, espeito-faire, bomba atômica. Essas coisas, quem sabe esperanto sabe. Nesse dia de Estólei Mattos, Gilmar pegou dois pênaltis, naturalmente porque a bomba atômica também fez efeito nele, isto devido que ele sempre se vestiu à inglesa e isto influi. O alemão ganhou em cinqüenta e quatro porque primeiro quebraram a canela do grande Purcas e também o cabeceador deles, se não me engano Costas, ainda estava zonzo com o roubo do leise e explicaram a ele que iam mandar o time todo para a Libéria, que é para onde eles mandam time russo que perde na copa. Toda copa tem um time russo na Libéria, só não teve nesta última, porque os russos não foram para a Argentina, menos porque não concordam com o governo da Argentina, que dizem que não pode ver um russo que não meta logo na cadeia por questão de prevenção, do que porque nenhum jogador de lá quer ir para a Libéria. O que mais se joga na Libéria é futebol. No inverno, faz frio que as partes de baixo vão encristalando, encristalando que quebra tudo igual a pedra. Razão por que o russo fugido fala fino, senão repare. No verão, faz um calor péssimo e eles todos andam de camelo. Para conhecer essas coisas todas, é preciso ter viagem. Ou então ler e prestar atenção nas conversas ilustradas. O homem da Hungria não é russo, mas tem bastantes russos no lugar onde eles moram, de forma que, quando eles dizem quero me mudar, vem o russo e diz não muda nada aí. Tudo isso são políticas internacionais. O russo que marcou Garrincha em cinquenta e oito está na Libéria até hoje e conta o povo que todo mundo que passa cospe na cara dele. Aliás, deles, porque quem marcou Garrincha foram sete e todos os sete estão lá com o povo todo cuspindo na cara deles e dizendo tavares-tavares, que é mais ou menos vá sentar num birro de chuteira na língua deles. Pelo menos dois eu sei que botaram para marcar Garrincha de sacanagem, porque todo mundo sabia que não podia ser, mas os outros cinco o pessoal de lá botou na esperança. Tinha uma medalha de herois do socialismo para quem marcasse Garrincha e segurasse, mas ninguém ganhou. Essas coisas eu estou falando para mostrar que não desconheço o que estou falando, quando estou falando sobre o futebol ou sobre esse problema ocorrido com os americanos e os japoneses. O time aqui forma no dabliú-mê, o povo aqui ainda não adotou essas viadagens, aqui é um goleiro, dois beques, três ralfes e cinco linhas, como sempre foi. Então nós alinhamos Chupeta, Cremildo e Didi. Poroba, Bertinho e João Baguinha. Geraldo Tuberculoso (conhecido pelo vulgo de Tubério, mas ele não gosta), Pinguim, Delegado, Jonga, Digaí e Honorino, este na reserva de qualquer posição, ou então se resolvessem fazer baba de doze. Tem criticas porque nesse time escalamos dois tuberculosos, que são Geraldo Tuberculoso, como o nome indica, e João Baguinha, que pegou a tuberculose e o apelido pela mania de ficar catando baga de cigarro no chão e fumando. Mas Geraldo é amarelo assim mas é o diabo com a bola e é aporrinhado e ponta-direita necessita ser aporrinhado. E João Baguinha é o tipo do tuberculoso diferente, nem dá sinal, e além do mais eu quero ver esse bom daqui que não tem doença, se fosse assim não jogava ninguém. Tem também um que é avariado da idéia, que é Digaí, que ficou meio abestalhado porque dizem que não comia em pequeno, mas para mim foi alguma pancada que o pai dele deu na moleira dele, o velho só vivia melado. Digaí tem esse apelido porque ele tinha um papagaio que ele vivia querendo ensinar e tanto disse diga aí ao papagaio que o bicho só dizia diga aí. Ele acabou se acostumando com esse apelido de Digaí, mas, quando está jogando, o povo grita "diga aí, louro!" e aí ele se reta e fecha pelo meio igual a um inglês e chuta tudo que estiver na frente. Considero um jogador de valor. Então recebemos aqui a visita de uns homens do governo. No começo, todo mundo pensou que eles tinham vindo para uma dessas eleições modernas, que eles se sentam lá dentro e depois saem dando risada e dizendo: "Fulano tá eleito". Mas não era isso, era uma coisa do ministério. Dá-se mais ou menos que esse ministério vai fazer umas pesquisas para ver se não temos uns metais, na certa a mesma coisa que fizeram a umas dez léguas daqui e agora lá está entupido de americanos e japoneses, não deram emprego a ninguém e ainda botam para fora todo mundo que encostar, está uma novidade. Para não dizer que não fizeram nada, botaram um lugar que você pode ir arrancar o dente, se o dente doer, assim mesmo só nas sextas e sábados, no resto da semana você pode chiar à vontade que ninguém tira seu dente. Estamos acordados para essas pesquisas, mas ninguém pode fazer nada, é tudo povo do sul do país e ainda mais tem os americanos. Naquelas conversas, o prefeito, que vive dizendo que aqui vai entrar dinheiro que nem ladrão acaba, quando acharem os metais, mas todo mundo está sabendo que o prefeito é meio aluado, por isso mesmo que deu para prefeito, disse que ia dar um almoço para a comitiva e ia fazer um jogo de futebol. O nosso time é por nome São Lourenço, mas está sem camisa, desde quando Aurélio alfaiate se mudou daqui e levou as camisas, que eram tudo dele. Também só quem tem chuteira é Digaí, inclusive faz questão de usar sempre e ninguém consegue que ele tire. Ele diz que está dentro da regra. Mas então o prefeito explica que arranja os equipamentos com os gringos da mineração e de fato arranja. Digaí não gostou que todo mundo agora tivesse chuteira, mas foi obrigado a se conformar. Quiseram até mudar o nome do São Lourenço para Brasil, levando em conta que o jogo ia ser contra os estrangeiros, mas ninguém ia envergonhar o santo numa hora dessas, por sinal podendo também envergonhar o Brasil, ficando assim mal com os dois. Então permaneceu São Lourenço mesmo e no dia do jogo Arnaldino atendeu uma grande encomenda de foguetes para o prefeito e mais dois que o time se cotizou, esses dois sendo marcados um para a entrada do time e outro para o caso de vitória. Para o almoço o time não foi convidado, mesmo porque tivemos que almoçar bem antes do jogo, para não dar congestão. Teve arroz e carne, uma festa completa, embora com uma certa preocupação da maior parte do time, visto que a maioria é de capinadores da prefeitura e, se o prefeito já não paga a ninguém desde março, veja-se como vai ser depois dessas despesas de almoço, inclusive ele mandou buscar uns matos especiais para servir ao povo da comitiva e esses matos são tudo os olhos da cara. Também ninguém capina mais, justiça seja feita, mas também contamos com os jegues, que fazem um serviço mais ou menos, só não fazem no meio das pedras. Está uma situação assim - nem ele paga nem ninguém capina, ainda se aqui se comesse capim como o pessoal da cidade até que ia ser melhor. Para quem viu o almoço do prefeito, estava tudo nojentíssimo, até papas brancas tinha misturado com os bifes e a mulher de Antenor da Bodega, que é vereador, ficou com vergonha de comer na frente daquele povo todo, também a mulher de Antenor - cala-te, boca, mas por aí se vê que quem nasce para vintém nunca chega a derréis, não estou dizendo nada. Os gringos chegaram de uniforme vermelho e o São Lourenço entrou de camisa amarela e calção variando um pouco, porque o prefeito esqueceu de pedir calção também, mas é mentira que Poroba jogou de cueca, isto espalham os que não se conformam com a vitória, os entreguistas. Esses calções a maior parte nós conseguimos quando passou uma gente aqui do programa da rua do lazer, mas ninguém ligou para a rua do lazer, que aqui qualquer uma é, e então eles deixaram esses calções aqui, uns dois ou três já tendo virado calçolas, pois o que tem de mulher descalçolada nestas bandas é mais do que abóbora quando a terra baixa molha, e o marido se torna desassossegado se a mulher está desprevenida, não fica bem. De forma que esses calções do lazer umas mulheres pegaram e usaram de calçolas e já estavam acostumadinhas, teve dificuldades na coleta. A situação do time não ficou boa logo na saída, porque, se você já viu japonês fazendo qualquer coisa, você sabe como é. Japonês, você diz uma coisa a ele, ele acredita. Então esses japoneses acreditavam em todas as coisas que diziam a eles e aí saiam todos de bolo, menos o goleiro que também era japonês, e quatro americanos que também estavam jogando. Os americanos davam bicudas. Porém eram bicudas de americanos, cada bicuda da porra. Chupeta dá na direita para Cremildo, com aquela intenção de que ele devolva, que é para execução das piruetas que fazem os profissionais, nisso quando seu Cremildo escorrega, porque não está acostumado com chuteiras e ai chegam uns duzentos mil japoneses, tudo chutando para a frente, tudo zumbindo e dando uns grunhidos de japoneses. Um japonês adentra a grande área, gritando como uma jega deflorada, com outro japonês um de cada lado e prepara a zorra para cima de Chupeta, que essas alturas está xingando a mãe de Cremildo, que é irmã da mãe dele e isso já rende complicação na família, porque Nascimento, marido da irmã da mãe dele, era bandeirinha e passou o resto do jogo dizendo se aquele filhodaputa não fosse goleiro toda vez que ele pegasse na bola eu marcava ofiçáide. Nisso chega seu Didi, que era beque porque tinha as canelas grossas e tinha quebrado a clavícula de Caetano com uma calcanhada e nem conversou: caiu de dois pés no joelho do japonês. O japonês apagou, porque, se você nunca viu um elefante, você nunca viu Didi, e então o japonês deu aquele uai de japonês, cambalhotou três vezes e caiu parado. Nisso seu Cremildo, que ficava desresvalando nas chuteiras, levanta a cara e passa um japonês na carreira e dá um chute na cara de Cremildo, que mais que depressa corre atrás do japonês e, não tendo como pegar, pega o japonês pelas pernas e dá uma dentada nele, no que o japonês se vira e dá um golpe de jojitso em Cremildo e Cremildo quase ficou sem nariz, quando bateu numa jaqueira que está assim do lado do campo, todo mundo conhece. João Baguinha quis puxar as pernas do japonês que Didi tinha acertado, mas chegou um americano e segurou João Baguinha pelo cabelo e parece que ia até dar uma bicuda em João Baguinha, quando entraram no campo o prefeito e a comitiva e então tudo se organizou, mais ou menos com meia hora de trabalho. Teve um americano que ficava dando sorrisos o tempo todo e abrindo os braços, porém foi vaiado.Quando chegou o fim do primeiro tempo, a situação não estava boa para a nossa agremiação, apesar, verdade seja dita, de que não se usou qualquer daquelas armas secretas, que se saiba. O juiz marcou pênalti na jogada de Didi contra o japonês e Chupeta defendeu, nem ele até hoje sabe como. Mas eu sei e Bertinho, chamado Bertinho Pinico, por ter umas manchas na cara escritinho aquelas manchas de ferrugem que dá em pinicos velhos, também sabe, porque foi Bertinho quem encarcou a bola na marca, afundando bastante, de maneira que o americano que cobrou o pênalti deu uma bicuda para o chão. São recursos do jogador de experiência e Bertinho já jogou até em Alagoinhas, quanto mais. Mas assim mesmo os gringos enfiaram dois na gente, um de japonês e outro de americano, sendo que nesse Chupeta quase sai de baixo, porque o americano chutou que parecia que queria lançar um satélio no espaço, só que esse satélio ia na direção de Chupeta, como de fato foi. Se tivesse rede, furava. Tubério, que não estava bem, por causa da marcação homem a homem do beque americano, nós substituímos por Honorino, com a missão de chegar na linha de fundo e centrar para Jonga ou Delegado subirem na cabeçada, visto que a zaga americana não sabia cabecear e sempre metia a cara na bola e relava o nariz todo e a zaga japonesa gostava de meter a mão na bola, quando ela subia demais. O problema era o goleiro japonês. O homem era o cão, o que tinha de pequeno tinha de abusado e só ia na bola fazendo ará-ará e outros gritos, com a cara de quem pretendia esfarelar a bola com os dentes, espantava bastante o atacante. Delegado quis mandar pegar um cachorro dele para a torcida iscar no japonês, mas não foi possível, mesmo porque esse cachorro, que se chama Menezes, em homenagem a um coletor que teve aqui, tinha sido preso por pedido do prefeito, pois esse Menezes não somente se ousa com todas as cachorras como também com qualquer perna que aparece e, quando o dono da perna não deixa, ele morde. Então não ficava bem para o bom nome da cidade soltar Menezes. A tática resolvida foi que Jonga e Delegado somente um subia de cada vez, o outro procurando ficar em cima dos pés do goleiro, para não deixar que ele subisse. Possa ser que o japonês não fosse gostar, mas ninguém estava disposto a tomar lavagem daqueles gringos, o metal é deles, mas o futebol é nosso, é a lei da vida. O time deles entrou também com uma modificação, que foi outro japonês no lugar do que Didi tinha acertado, que estava todo triste junto da comitiva, com o joelho maior do que a cabeça. Eu disse a Didi que não se animasse, que não ficasse quebrando os joelhos todos do adversário, a não ser quando fosse por providência, que aí todo mundo entende. Pois então Honorino começou a correr pela ponta direita. Honorino não tem assim um controle de bola muito bom, mas ele é especialista em dar um chutão para a frente e sair atrás da esfera galopando acelerado e depois centra. Nessa posição, ele só sabe fazer isso, quer dizer é melhor do que Gil. Honorino então deu uma porção de corridas, mas nem Delegado nem Jonga estavam acertando direito a pisar nos pés do goleiro. Jonga chegou na beira do campo e me disse que o desgraçado ficava sapateando e, quando subia, espalhava os joelhos para os lados e que se ele, Jonga, ainda tivesse dentes, já tinha perdido todos das caqueradas do japonês. Nessa hora foi que nós resolvemos que, quando o goleiro fosse subir, Jonga metia o dedo por debaixo dele, tendo para nós que nem japonês, nem americano, nem ninguém - talvez o francês, que é o povo mais descarado - ia tolerar que enfiassem o dedo nas partes traseiras, isso assim de repente dá um sobressalto em qualquer homem. O jogo até que tinha facilitado, porque Pinguim caiu dentro da área quando ia passar pelo americano que abria os braços e o americano pensou que tinha matado Pinguim e aí largou a bola para ver, quando que Pinguim se levanta ligeirinho e marca o São Lourenço! O goleiro ficou retado, porque o americano atrapalhou na hora da defesa, mas esses problemas de brancos eles resolvem lá entre eles mesmos e Pinguim ainda sacudiu a camisa na direção do americano, essa gente miúda gosta muito de pirraçar. Mesmo assim estamos perdendo e Honorino já vai dando sinal de que não aguenta mais correr e na defesa temos grande pressão japonesa, no mesmo jeito, tudo de bolo. Felizmente, Cremildo já tinha tido permissão do juiz para jogar sem chuteira e cada pontapé que ele dava com aqueles cascos que Deus lhe deu espalhava diversos japoneses e descontrolava o ataque estrangeiro. Poroba também aprendeu a escorar as bicudas dos americanos. De vez em quando, o americano acertava a bicuda em cheio e Poroba calçava e subia com bola e tudo. Mas escorava e esse é o heroísmo do atleta brasileiro, porque, depois do jogo, Poroba passou muito tempo com zumbido nos ouvidos, dos solavancos que ele levava, toda vez que escorava uma bicuda. Está se vendo que a situação não era boa, mas podia ser notado que o japonês do gol estava cada vez mais aporrinhado com as dedadas de Jonga, inclusive porque Delegado também tirava suas tasquinhas de vez em quando. O japonês fez diversas caretas e foi piorando depois do gol mais sensacional da tarde, que foi Digaí, que até agora não tinha pegado na bola. Digai pegou a bola solto na ponta esquerda, porque um beque americano foi rebater de primeira e ela espirrou para o lado e o americano ficou carrapeteando sem entender nada. Digai ficou até meio sem graça e começou a dar com o canto do pé na bola, doido para aparecer alguém para receber um passe, mas - é por isso que eu digo, torcida vale muito - todo mundo começou a gritar digai, louro, digai, louro!" e Digaí ficou mais do que emputecido. Até hoje eu fico pensando se Digai, que o nome cristão é Juvenal mas só a mãe dele chama ele de Juvenal, acha que aquela gritaria toda vem do goleiro, porque ele parte para cima do goleiro. Quem já quis segurar um maluco atacado sabe como é para segurar Digaí, precisa um destacamento de homens dobrados e mesmo assim com uns porretes. Então seu Digaí faz uma diagonal pelo bico da área e um japonês que cercou ele tomou uma peitada que até hoje aquele japonês não compreendeu e, quando chega bem no bico da área, seu Digaí me dá um cacete que quase a bola fica encaixada no ánglio superior direito da trave do japonês, mas não ficou: bateu no ánglio, voltou, bateu na cabeça do japonês e entrou e sacudiu o véu da noiva, só que não tinha véu, mas também não tinha noiva e gol do Brasil! Carlito Bofe, que estava tomando conta do foguete da vitória, não agüentou e soltou a pamonha, catapriutabum! Marcador igualado e Digai abraçadíssimo e perguntando cadê meu papagaio, cadê o papagaio, me dê meu papagaio. Esqueci de dizer que o papagaio de Digai é finado, porque ele enchia a boca de água e barrufava o papagaio para ele aprender a falar, de sorte que deve de ter afogado o bicho numa certa feita dessas; ou então matado de defluxo. Mas o empate não serve a quem defende o seu país, mesmo quando ele empata a gente. Honorino já está botando os bofes pela boca, mesmo porque, agora, além do americano está um japonês marcando ele. Não pegam, mas chateiam, inclusive japonês não cansa, todo mundo sabe disso. Mas como ninguém marcava João Baguinha, que até agora não tinha feito nada a não ser reclamar do juiz e correr para abraçar quem fazia gol, a redonda acabou sobrando para ele na intermediária dos gringos e ele aí deu um esticão para dentro da área, uma coisa linda, que só se acredita que foi João Baguinha porque se viu. O goleiro deles sai e arma o bote, mas nisso Delegado vem de lá e enfia o dedo na bunda do japonês e o japonês não quis acordo. Revirou o corpo e deu uma pezada na cara de Delegado que Delegado nem catou ficha. Caiu inteiro no meio da área. Temos aí um pênalti claro, mas o japonês avançou para o juiz e disse ele mete dedo no meu trazezo, ele mete no meu trazezo, isto seu Delegado todo estatelado no gramado, com um lado da cara inchado e fazendo careta com o outro. João Baguinha, que era especialista nisso, veio logo esticar as pernas de Delegado, mas ele só se levantou quando disseram que iam aplicar uma injeção e assim mesmo estava meio bambo. Então o juiz botou Delegado para se perfilar assim com as mãos nas costas e disse seu Delegado, o senhor dá a sua palavra de honra de esportista? Dou sim senhor, disse Delegado. O senhor, disse o juiz, dá sua palavra de honra de esportista como não meteu o dedo no traseiro do goleiro adversário? E Delegado não era besta de dizer que não dava, senão depois do jogo ele ia ver onde a gente socava a honra de esportista dele, honra é a da pátria amada que ali a gente está defendendo, eles levam o metal mas não levam a flâmula. Aí o juiz apontou para a marca do pênalti e o japonês quase vira um baiacu de tanto inchar as bochechas, sabe-se que o japonês e o chinês são os povos de maior capacidade de inchar as bochechas. Eu adentrei o tapete verde, com a finalidade de declarar que o São Lourenço não aprovava o tumulto e que ou respeitavam o juiz ou eu tirava o time do campo e considerava o jogo ganho e aí não me responsabilizava pela conduta dos meus atletas, que era tudo rapazes de sangue quente. Eu sei que acabou Cremildo se dirigindo para a marca penal e a última coisa que o japonês viu foi o pé de Cremildo se levantando, porque se tem uma coisa que Cremildo sabe fazer, essa coisa é dar um porrete fixe, desses que a bola entorta. Tive que dar um esporro em Carlito Bofe, porque ele já tinha gasto nosso foguete no gol de empate e o jogo terminando e o time todo se fechando na defesa. Didi aprendeu que, se batesse os pés na frente do gringo que estava com a bola, o gringo se assustava pensando que Didi ia dar um chute nele esoltava o esférico. Vitória do Brasil, ninguém envergonhou a pátria. Muita gente pergunta se, em vez de ganhar no futebol, não era melhor a gente viver bem, igual aos gringos vivem? Isso demonstra ignorância, porque se sabe que ao gringo interessa mais mostrar que a raça deles é melhor, por isso que Hitler mandou matar todos os alemães que não ganharam nas olimpíadas, para não envergonhar a raça. Daí se vê que, ganhando no futebol, a melhor raça somos nós.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Seu lixo é sua cara!

Pra ser sincera, eu não reciclo o meu lixo de forma literal tal qual fazia na Ásia: não. Acomodo-me a separar vidros, latas, embalagens plásticas e alguns materiais extremamente reaproveitáveis... Lá, tínhamos que fazer amizade com o lixo: separar isopor, pilhas, papelão, revistas e afins em plásticos específicos... Não que considere o separar parcial uma atitude digna: creio que poderia estar fazendo mais pelo meio-ambiente e penso que logo, logo separarei melhor o meu lixo, porque penso que ele reflete muito bem a nossa maneira de viver e porque precisamos e devemos exercer a cidadania para o bem estar do mundo/meio ambiente e por que não dizer para o nosso bem estar? Luís Fernando Veríssimo, mais um gaúchinho mil, rico na arte do humor, escreveu um conto recheado de humor, que retrata a "personalidade" do lixo ( rsrsrs ). Vamos ler comigo?
LIXO
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam. - Bom dia... - Bom dia. - A senhora é do 610. - E o senhor do 612. - É. - Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente... - Pois é... - Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo... - O meu o quê? - O seu lixo. - Ah... - Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena... - Na verdade sou só eu. - Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida. E como não sei cozinhar... - Entendo. - A senhora também... - Me chame de você. - Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim... - É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra... - A senhora... Você não tem família? - Tenho, mas não aqui. - No Espírito Santo. - Como é que você sabe? - Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo. - É. Mamãe escreve todas as semanas. - Ela é professora? - Isso é incrível! Como foi que você adivinhou? - Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora. - O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo. - Pois é... - No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado. - É. - Más notícias? - Meu pai. Morreu. - Sinto muito. - Ele já estava velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos. - Foi por isso que você recomeçou a fumar? - Como é que você sabe? - De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassados no seu lixo. - É verdade. Mas consegui parar outra vez. - Eu, graças a Deus, nunca fumei. - Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo... - Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou. - Você brigou com o seu namorado, certo? - Isso você também descobriu no lixo? - Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. - É, chorei bastante, mas já passou. - Mas hoje ainda tem uns lencinhos... - É que eu estou com um pouco de coriza. - Ah. - Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo. - É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é. - Namorada? - Não. - Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha. - Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga. - Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. - Você já está analisando o meu lixo! - Não posso negar que o seu lixo me interessou. - Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia. - Não! Você viu meus poemas? - Vi e gostei muito. - Mas são muito ruins! - Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados. - Se eu soubesse que você ia ler... - Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? - Acho que não. Lixo é domínio público. - Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso? - Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... - Ontem, no seu lixo... - O quê? - Me enganei, ou eram cascas de camarão? - Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei. - Eu adoro camarão. - Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... - Jantar juntos? - É. - Não quero dar trabalho. - Trabalho nenhum. - Vai sujar a sua cozinha. - Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora. - No seu lixo ou no meu?